Estou lendo um livro chamado "Freakonomics", escrito por dois economistas americanos. Num dos capítulos, eles discorrem sobre a maneira como as pessoas conseguem o que querem ou precisam, especialmente se outras pessoas também desejam a mesma coisa. A isso dão o nome de Estudo dos Incentivos, onde se incluem coação, multas ou somente o que está por trás da vontade.
Desde pequenos, costumamos reagir a incentivos negativos ou positivos, que se englobam em três: econômico, social e moral. Alguns desses incentivos foram colocados na esperança de dimunuir a criminalidade ou a quantidade de acidentes de carro envolvendo jovens que dirigem em alta velocidade alcoolizados. Nesses casos específicos, podemos perguntar porque os números continuam a crescer, quando poderíamos apenas fazer a pergunta contrária: Por que não existem
muito mais infrações do gênero?
Todos os dias
deixamos de lesar ou fraudar algo ou alguém. A possibilidade de dano moral (ir preso não é a melhor coisa do mundo), dano econômico (você pode perder seu emprego) ou social (sua família ver sua foto na coluna policial da cidade) faz parecer que o prejuízo é muito maior do que o ganho com a ação.
Você deve ter ouvido de algum amigo algo como: "se tiver que roubar, roube algo que você não se arrependerá se for preso". Ele está agindo moralmente errado, mas o princípio está certo: o incentivo
deve ser maior que a pena.
Por isso que eu acho que a
Lei Seca que está acontecendo no Estado deve ser algo sem volta. Além de uma multa pesada, perder o direito de dirigir, você ainda vai preso. A pena é dura, então não vale a pena nem tomar aquele choppinho antes de pegar a direção. Muito melhor do que proibir a venda de álcool próximo das estradas (medida bastante estúpida, por sinal). Nesse meio tempo, ouvimos
as mais diversas formas de trapacear o bafômetro, sem sucesso. Mas quem trapaceia o bafômetro é desonesto com causa, certo? Existe o "bom desonesto"? O cara que trapaceia num bafômetro tem mais motivos do que o cara que rouba a sua carteira? Quem é mais criminoso?
Por incrível que pareça, um crime é mais "bem aceito" de acordo com a camada social da pessoa que o comete. Aquela coisa de "pobre é ladrão, rico é cleptomaníaco". A diferença entre beber Black Label e você dirigir um Renault, não foi o caso do carinha que encheu a cara de cachaça e pegou a cheveteira.
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Existe uma história do Anel de Gyges, de Platão. Sócrates argumentava que as pessoas são boas mesmo sem correr o risco de punição. Glauco, um de seus alunos, cria uma história onde um pastor chamado Gyges descobre um anel que o deixa invisível. Sem ninguém para ver o seu comportamento, Gyges começa a praticar más ações: rouba, mata, o escambau. A história de Gyges leva a um questionamento moral: Se ninguém estivesse vendo, você cometeria um ato ilícito?
As pessoas costumam ser mais honestas à medida que a auto-estima dela é mais elevada- isso nada tem a ver com dinheiro. Lugares onde o chefe e o moral do grupo (inclua aí a família, amigos e colegas de trabalho) são mais elevados, há menos risco de furto ou trapaça. Isso quer dizer que um
político corrupto deve se achar um merda, enquanto que uma pessoa que é feliz e é reconhecida não o faria nem mesmo se ninguém estivesse olhando. Um monte de gente rouba e trapaceia, mas a vasta maioria não o faz, nem o faria.
Pense que aquele político que você tanto odeia pode ter a conta bancária gordinha, mas nunca terá uma noite de sono como a nossa- você sabe que, isso sim, não tem preço.